#43

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Tateando a parede da sala à minha procura, a luz neon não pede licença. É das mais parasitas: as infiltrações que eu preciso arrumar, as manchas sujas de mãos, a poeira que se acumula com uma velocidade absurda; tudo é exposto com a avidez de quem entra sem bater trazendo boas novas, como se descortinasse e percorresse teatralmente o meio-caminho até a coxia, revelando à plateia uma adaptação completamente nova de uma história consumada.

Que plateia?

Estou só aqui, curado em ímpeto paraplégico, movido por vontades mancas. Não há nada de novo que meu monólogo já não tenha tripudiado sobre. 

Mas, talvez a intromissão se dê pelo tédio. Talvez tenha vindo pernoitar não para fazer companhia, mas para fugir do expediente, da azáfama de ser holofote coadjuvante no show de revelações das apostas e corpos a postos.

Dou um trago, apenas um. A tragédia que orbita meus olhos, a poeira que decanta sobre os feixes quase toca profundo meu âmago.

Ama, go, vá, antes que eu acenda uma vela, abra uma garrafa, recolha o caderno embaixo da cômoda; antes que eu veja em você qualquer coisa para compor meu olhar de paisagem.

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