#44

 

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Abstinência

Com a frieza mercenária de uma jukebox, o homem que empunha o violão toca quase sem pausas a seleção que vai de Bob Dylan a The Eagles, com escala cínica numa versão de Imagine em ritmo de guitarra baiana. Cínica, já que seus ouvintes tiram os olhos da tevê apenas por bons modos; a cortesia da boa educação é capaz de reproduzir as palmas mais desanimadas.

O casal na ponta do balcão está animado. Ele passa a mão na perna dela sempre que pode, alternando entre longas apalpadas e rápidas e suaves apertadas. O corpo fala. O corpo berra, pensa a velha solitária que assiste aos movimentos bêbados da moça. Sente um tremendo desgosto ao ver o salão assim, tomado de gente. É como se, por ser a presença mais assídua e antiga do recinto, tivesse mais direito que os outros. Vai ver os estatutos nunca escritos que regem as normas da vida boêmia possuam cláusula em nota de rodapé atestando tal preferência. O que não preveem, no entanto, é a breguice da dublagem de “Tua Boca” que o homem agora mimica para a mulher.

Viro-me para desver.

Dou de cara com o chapeiro pela fresta onde os pedidos cortam caminho. Esse coitado mal ouve o som que sai das caixas, o chiado do óleo fervendo é demais para haver qualquer interação. Chefe mandou dizer que hoje não tem hora, o garçom novato e solícito veio há pouco comunicar. O tempo ali é implacável. Cândido, impregna nos rejuntes, não sai nem com água, como o óleo que frita os hambúrgueres. Em pouco, os ânimos e os teores alcoólicos se exaltam. O bar parece ainda mais cheio e a senhora já não reclama — sorri e até se diverte; o casal acha um canto reservado, o músico arrisca uma autoral.

A moça, há pouco sozinha numa mesa distante, dança o salão de canto a outro. Os cabelos alongam o trajeto dos movimentos, o olhar baixo faz coro ao sorriso inocente-contido. Melindrosa, se veste com as luzes neon dos letreiros, que se divertem por entre suas curvas. Grito, gesticulo, chacoalho os braços como um náufrago em alto-mar, ninguém se atenta. Continuo olhando fixo para a dança como um cachorro hipnotizado pelo pedaço de carne na mão do dono. Ela vem chegando perto e não tenho para onde fugir. Abaixa e sussurra algo no meu ouvido, mas uma enxurrada de freadas, solavancos, pedaços de conversa, risadas, choros, tum-tum-tuns, pássaros, crianças, alarmes, passos, batidas, toques polifônicos, tschhh, latidos, buzinas, vento, xingamentos, saudações, boa tarde como o senhor está, mais forte, mais forte sobrepõe sua fala.

Vejo se afastar enquanto o calor se desvencilha do meu corpo. Volta a dançar, encolhe o ombro esquerdo de leve, o bastante para a alça da camisola ceder à gravidade. O sorriso se alonga graciosamente. A velha, o casal, o violonista, todos distraídos, não é possível que sejam tão desatentos. A afasia se instaura, não há mais o que fazer. Deixo o encosto dar conta do meu peso e assisto a seda escorregar por suas curvas até chegar à mão, que agora segura um copo quase cheio.

Devo estar delirando, tenho certeza que não estava aí há três segundos. Se aproxima. Involuntariamente meu queixo se levanta para sôfrego bebericar o líquido incolor. Ou são seus dedos macios levantando meu rosto. Não sei. Não há como saber. A enxurrada de sons se intensifica.

Quente. Quentura descendo pela garganta; rasga cada centímetro do meu âmago judiado. Argh. Ugh.

Velha, violão, tevê. Nada. Lençol represado de suor, ofegância, afago lânguido.

– Foi bom pra você?

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