#45

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Vagabundo, ladrãozinho, encostado, pivete, desocupado, craqueiro, sujismundo, encosto, delinquente, meliante, tomou enquadro de pê-eme, de vidro de SUV. Ouviu todo tipo de xingamento nos anos de canteiro, cusparada teve de monte, vixe nem me lembre, dia ruim, e meus fio, nem sei, a vida é difícil, Deus que ajuda, ele sabe, fé no sinhô. A audição é virtude. A gente tem dois ouvido pra ouvi e uma boca pra falá e cumê, ou seje, dois pra um, escuto quieto que é pra não ouvir mais depois. Sonha com poesia, quer ser escritor embora ouça dos motoristas do cruzamento da Avenida São João com a Duque de Caxias que isso não dá dinheiro e que deveria mesmo é procurar serviço de verdade.

Dia desses, papeando com o reflexo dos filmados, baixou, chamou, carro branco, bacana, vem cá, cê não quer trabalhar lá na minha empresa.

Pois não, sim senhora só um minuto, alô é a senhora Paola, pois não sim senhora, pode ir primeira à direita sétimo andar. Uma semana, gostei não, povo sem paciência, papelada, botão, fosse assim tava perdido. Pedi as conta fé em deus.

Do outro lado da praça, avental azul-claro desbotado, pele escura de sol, rugas e mullets grisalhos a fugir do boné de tela, chaves no cinto, dicção parcial, coração grande. Varre a sujeira da calçada como expulsa os bêbados do balcão. Tenho vaga, lavar banheiro, qué? Pago PF. Um mês, mais ou menos um mês. Esfreguei aquele chão como se tivesse comichão, cada pedacinho, rejunte, lavei como se fosse meu, vou te falar, ó, povo sujo, sem educação, mal acostumado, vixe. Toda hora, descarga?, nada, duvido até que lavam mão, não pegava nem neco de sanduíche. Um dia, deixando o expediente, viu o dono levar a menina da rua, conhecida de vista, dali, das quadradezas do cruzamento, pra dentro, porta trancada. Fiquei bagunçado, medo, sumi, isso não se faz, quis chamar a polícia, a rua é braba.

O susto o espantou dali. Ficou semanas zanzando por entre carros, pombos, restos de comida, de gente, de esperança, de fedor, de cheiro ruim, de mijo, carniça, poeira, chão da Praça da República. De cima do coreto, viu Maribela carregando um edredom tie-dye de branco a cinza, varrendo o chão com os pés de cansaço encardido, tateando o nada com o olhar espremido. Não se conteve: ã, é, hum, meu nome é, ã, Adriã, Adriano. Passaram a dividir o colchão de solteiro. De sono pesado, levou noites até perceber que a amada se aventurava além-praça durante as madrugadas. Quequié, ã. Love Story, história de amor, bem. Tendeu. A mulher era romântica, pensou, elas tão sempre certa né, deus quis assim, ô sorte, fé nele.

Dia aí, Maribela apareceu com colchão de casal novinho, de dentro do plástico, pra nós. Se esparramou, fez careta, roçou as costas, suspirou, hum, ah. Descansou forrado pela sombra de um baobá, vida boa. A mulher n’as andanças, corpo em ésse, cigarro aceso, tarde quente, batom lambuzado, alça caída, quanto é, meia hora, tem fogo, eu apago. Fumaça.

Lá pelas sete um cachorro babento foi xeretar seu sono. Mari não voltou, hum. Estacionou no primeiro balcão que viu convite, chamegou o mármore, tem café. Tem esfregão, banheiro, privada, pano, balde, cândida, azulejo. Pr’essa eu não volto, quero escrevê, tem papel?

Virou garçom, de gravata borboleta, de cabelo penteado, de perfume barato. O que sobra da comida vira jantar da mulher. O que sobra do bloquinho, poesia.

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