#48

B17D253A-B524-4758-989C-90278670EF9D

Nunca achei que sentiria falta do carpete brega em pattern noventista, da luz com mau contato, artificial como o bom dia desanimado da Josi, aquele café aguado. Com a cabeça baixa, costuro as latas de refrigerante, os restos de marmita, papel, sapatos (um pé só), almoço executivo 20 reais, compro ouro, água água água. Pé ante pé. A imensidão da Faria Lima engole cada passo, a respiração amarrada, vinte e nove anos, vinte e nove anos sem saber o que é desemprego e justo agora aquele desgraçado filho duma. Vou falar o quê pros meninos? Izildinha, meu amor, me desculpa Izildinha. Atordoado em frente à banca, unzinho hoje pode, depois de tanto tempo, mas hoje pode. Como perder 4 kg em um mês, VERGONHA, bolo de milharina fácil e rápido, SIM você pode, ex-bbb casa com empresário famoso e ruma para os Estados Unidos, meu olhar letárgico perpassa as capas enfileiradas, a tevêzinha fiel-companheira chia no canto ao fundo, distrai. Me arruma um isqueiro, parceiro.

O timbre rouco da cidade aumenta, coisa de louco, não dá pra ir pra casa, não neste estado. Imagina, arrastando a janela filmada pra falar do futebol, Seu Manoel saca na hora: tô na rua. A conversa vai chegar no síndico, aquele alvoroço, próxima reunião devoram-me a canapés. A jamanta de aço passa gritando — trá-tráu — suporta cabeças pesadas, olhares estreitos, o bolso vibra, Stella meu anjo, coitada, desesperada na entrada do motel. Preciso de ajuda. Olha o meu estado, esgruvinhado, o terno amassado, boate show 15 reais, por favor senhor não é permitido fumar aqui, uma branquinha então. Mais duas, isso, quanto ficou?, calma você está muito apressadinho, ainda é cedo, mais duas porra, já num falei?

Que horas são? Socorro, que horas são? Izildinha louca atrás de mim, e a escola dos meninos?, e a formatura do Fabinho?, acabei de fechar o plano de seis meses no pilates, o que você quer que eu faça? Senhor eu chamo um táxi, não.

Ah… Quanto tempo já faz daquela vidinha em Bragança? Comezinho, sorriso-mansidão, dificuldade era manga no alto, bola furada, pipa solta. Minha mãe (ô mãe, e agora?), a senhora, mãos enrugadas, pele fina, avental surrado, São Paulo meu filho, é pra lá que cê tem que ir.

Sigo trôpego na imundície, a noite fria e o vento gelado parecem querer me desanuviar. Na Teodoro, tudo fechado: bares, restaurantes, metrô, rostos, nem um canto pra recostar, o sono já embalando as pálpebras, duas horas pro próximo ônibus, acho que… Acorda, vagabundo! É, você mesmo, acorda! Aqui você não vai dormir!

Acossado, fujo arfando em desespero. Ainda zonzo, ouço o ônibus se aproximar. Vem vindo, a luz insossa, crepuscular, o lusco-fusco acaricia a relva das beiradas, esbranquiça as paredes e portas metálicas, na ânsia mais dois passos, o clarão aumenta, a carroceria sacoleja, vem chegando, abro o braço, mais perto, outro, meus meninos, mais perto, vinte e nove anos, mais, Stella, perto, cafuné Bragança meu irmão São Paulo avental Izildinha meu deus Izildinha me desculpa é que.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s