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Ô, motô!

Não bastasse o castigo do sol da manhã, o peso do sono atrasado dos passageiros, o chassi resmungão pelo asfalto acentuado de buracos; não bastasse a pontualidade absurda a que se tem que fazer cumprir numa cidade como São Paulo, a azáfama dos carros que reclamam sua soberania a fórceps dos seus muitos cavalos, a ciclovia – Meu Deus, a ciclovia! – cuspindo passantes como moscas abanadas do bolo; ainda assim, é preciso ter paciência para pavimentar com culpa, contagens até dez e técnicas avançadas de mindfullness a via que liga os atrasos, manias e horários marcados. Francisco de Souza Oliveira, Batata para quem bem o conhece, comum como seu nome e simples como o prato feito que enche seu bucho dia sim, dia sim, cometeu o crime-maior dos “motôs” que circulam pela cidade mais populosa das Américas: pulou um ponto.

O ocorrido se deu às oito e quarenta e três da manhã de uma terça-feira, e como os efeitos de um terremoto na parte Sul da Antártida, foi imperceptível para a esmagadora maioria das pessoas. Há de se reconhecer, no entanto, as consequências do evento, que desencadeou numa reverberação de desventuras particulares capazes de transformar a vida de alguns poucos paulistanos num verdadeiro inferno.

Luís, aposentado, foi um deles. Como é de praxe, encontrava-se pontualmente aboletado no beiral da janela, à espera da loira-de-trinta-e-poucos-que-tem-um-bundão passar apressadamente por seu campo visual — um lembrete de que nem Viagra resolve e de que o café já está no ponto para ser tirado do fogão. Em virtude do atraso causado pelo motorista que pulou o ponto, parando dois quarteirões à frente, a moça optou por uma rua paralela. Aos berros de “Puta merda, Valéria! Pra que que você aumentou o fogo disso aqui?”, Luís se viu obrigado a estancar às pressas a erupção da cafeteira.

Fabiano também teve seus percalços. Com alianças em mãos e texto na ponta da língua, o wannabe-Don-Juan da Vila Buarque esperava surpreender Letícia no ponto onde se conheceram há cinco anos, o mesmo em que ela descia para chegar ao trabalho. A moça, atarefada e distraída, esqueceu de carregar o celular durante a noite, situação recorrente na vida do casal e que de tempos em tempos, e ultimamente bem mais que antes, fazia rodar roteiros tarantinescos na mente do namorado, o qual espancava, esquartejava e estraçalhava a esvoaçantes golpes quem quer que a moça, suposta e fantasticamente, estivesse na companhia. Não deu outra. Fabiano, de chofre, foi tomado por raiva inconsequente: arremessou o celular no chão que  milissegundos antes de se estraçalhar em quase incontáveis pedaços, vibrou com a chamada da namorada. Tarde demais. Alianças percorreram a enxurrada suja dividindo as pequenas ondas com copos e outros descartáveis.

Também devemos dar a devida importância ao impacto indolor que a freada brusca provocou entre a janela e a cabeça do homem que não tivemos a chance de pescar o nome. Este irritadiço personagem apelou às famigeradas palavras de baixo calão e a uma descida desengonçada pelos degraus rumo à calçada, logo após ser acordado de um dos mais profundos cochilos intermitentes que um passageiro já teve o privilégio de protagonizar em uma viagem de ônibus.

O último, e não o menos insignificante, o epicentro da questão não fugiu à Física e foi, de fato, o que mais sentiu os efeitos do abalo. Batata, que agora prefere ser chamado de Antônio para não ser reconhecido, deixou as madeixas grisalhas ganharem o couro cabeludo numa tentativa de disfarçar a identidade e encurtar os anos que o separam da aposentadoria. Se já era de falar pouco, agora quase não produz som, e quando perguntado sobre o episódio, cerra os olhos, se desconforta no banco e tamborila leve e vagarosamente os dedos na direção, como quem diz, em Código Morse: vai descer.

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