#52

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Um ano, Iolanda. Um ano que não te vejo mais por estes corredores. Em seus últimos, a arrastar indefesos sapatos Moleca do quarto para a sala, mas quem te viu madura ainda inveja as passarelas que se abriam sob os pés aqui no Centro. Da janela te admirava gatunar olhares, assobios, desejos mudos no caminho até nossa vendinha. Secos e molhados, lembra?, nossos encontros depois das dez que sua mãe jamais confidenciou a um pai coronel aposentado. Pela fresta da cortina da sala, pequerrucha daqui de cima, despia meus medos enquanto ensaiava as reações que executaria à sua espera no altar. Acostumado com nossos sessenta e três de casado, confesso que a contagem do zero trouxe só dor de cabeça. Tive de me adaptar como nunca, imagine só: ainda não aprendi a passar café que não seja pra dois. Salete também, que insiste em por a mesa em duplas, mas, pensando agora, pode ser para forçar sua companhia no almoço. Vai saber, você lembra dos meus dedos com ela, não fossem as camisas bem engomadas, vai saber.

Semana passada Olavo esteve aqui, fez que fez que eu tinha de sair um pouco e quase no instante em que bati o telefone, seu Mitsubishi apontou na esquina. Confesso que me senti ainda mais sozinho quando contou das viagens, a última, para a Finlândia com Stela. Lembrei de você ao lado do telefone, preocupada, dedilhando o fio, fazendo as contas do fuso no bloquinho só para rabiscar tudo e evitar o sermão quando eu aparecesse. Olavo anda bem, aliás, de emprego novo e casa em reforma. Mandou instalar uma adega climatizada que importou dos Estados Unidos num canto da sala, que agora está cheia de arandelas e luzes amareladas. Parece um fim de tarde, iguais àqueles que a gente passeava de mãos dadas pela praça. No meio de um punhado de livros desses de arte que ele coleciona, vi o quadro bonito que ficava na sala de recepção do Doutor Márcio; na hora me deu um mal-estar e eu fingi sono, dor na perna, enxaqueca, foi como se assistisse a um compilado de todas as vezes que precisei te levar lá. Pus a culpa no espumante chileno, coisa que a Stela torceu o nariz pois foi um presente caro.

Olavinho Jr. tem vezes que manda notícias e eu me seguro pra não te passar o telefone.

A vendinha virou um mercado desses de rede, o pessoal é todo de fora.

Os poucos amigos, os que ainda não se foram, estão ocupados demais com seus testamentos e crises familiares.

A vida não é mais a mesma não, Iolanda.

Depois de você eu até tentei, sabe?, chamei uma e outra, pedi que penteassem meu cabelo, colocassem seus vestidos, passassem a colônia, se esparramassem pela nossa cama como você fazia depois do banho.

O doutor pediu para registrar tudo que viesse na cabeça, como num diário. Por isso te escrevo. Otimista, diz que tenho mais três anos se continuar respondendo aos tratamentos. Enfim.

Tranquei a porta, despluguei o telefone e dispensei a Salete com uma desculpa qualquer. Te escrevo aqui do terraço, onde venho às vezes. A brisa até que é gostosinha, embora ataque um pouco minha labirintite. Muitos pombos também. Será que te viram no dia? De certo foram os últimos. Poderiam ter tentado um rasante, gorjeada que fizesse repensar escorregar Molecas beiral abaixo. Mas a vista é realmente um espetáculo. Dá para ver a cidade todinha de cima; assim, muito mais calma e pacata, nem parece tão diferente daqueles tempos. Fecho os olhos e equilibro-me no beiral, como você há um ano. Agora, entendo. A sensação é realmente única. Quando sumia, era para cá? Seu rosto acalentado ao voltar. A brisa se intensifica, cambaleio. Seria prudente dar dois passos pra trás, mas te vejo abrindo passarelas no Centro, um frio na barriga, gatunando olhares, assobios, desejos mudos no caminho até nossa vendinha.

Não hesito, flutuo.

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